Wednesday, July 4, 2007

Lista dos camaradas da C.Caç.n.º1590

 


NOME ESPECIALIDADE
ABEL FERREIRA DOS SANTOS SOLD. ATIRADOR
ABÍLIO DA SILVA VIEIRA 1º CABO ATIRADOR
ADELINO ALVES PEREIRA 1º CABO ATIRADOR
ADRIANO DIAS FURRIEL
AGOSTINHO SOUSA V. DA CUNHA 1º CABO RADIOTELEG.
AIRES JORGE COSTA GOMES CAPITÃO
ALBERTO CARLOS SANTOS CARIDO P.AUT.MET.-COND.
ALEXANDRE ADELINO T.PEREIRA DA SILVA FUR. ATIRADOR
ALFREDO AUGUSTO D. LEITE SOLD.ATIRADOR
ALFREDO AUGUSTO FERREIRA VIEIRA ALFERES
ALFREDO DE SILVA FERREIRA 1º CABO MEC. AUTO
ALFREDO FILIPE V.PEQUENO SOLD.COND.AUTO
ÁLVARO ALMEIDA GOIS FUR.TRANSMISSÕES
AMADEU DA COSTA SANTOS PEREIRA 1º CABO ATIRADOR
AMADEU JESUS NOGUEIRA P.AUT.MET.
ANIBAL FONTELO MENESES 1º CABO ATIRADOR
ANTÓNIO A.F. DE SOUSA 1º CABO ATIRADOR
ANTÓNIO AFONSO ARAÚJO SOLD. ATIRADOR
ANTÓNIO DOS SANTOS PERNA GORDA 1º CABO ATIRADOR
ANTÓNIO J. DE OLIVEIRA SOLD. ATIRADOR
ANTÓNIO JOÃO JESUS VALENTE SOLD. ATIRADOR
ANTÓNIO JOSÉ GOMES SOLD. ATIRADOR
ANTÓNIO S. HENRIQUE SOLD. ATIRADOR
ANTÓNIO SOARES FERREIRA 1º CABO ENFERMEIRO
ANTÓNIO VIEIRA BODAS MEC. AUTO
ARLINDO J. PASTOR RAMOS SOLD. COND. AUTO
ARMANDO AUGUSTO SOEIRO SOLD. ATIRADOR
ARMÉNIO DE ALMEIDA SANTOS SOLD. ATIRADOR
AVELINO DE JESUS RIBEIRO SOLD. ATIRADOR
BELARMINO CARDOSO LAMEIRA 1º CABO ATIRADOR
CARLOS ALBERTO NICOLAU SOLD. MAQUEIRO
CARLOS OLIVEIRA COELHO SOLD. ATIRADOR
CARLOS OLIVEIRA DA CUNHA SOLD. ATIRADOR
CELESTINO ANTÓNIO ZORRO FUR. VAGOMESTRE
CUSTÓDIO DE JESUS MORAIS SOLD. ATIRADOR
DANIL AUGUSTO LEONARDO FURRIEL
DAVID DE JESUS FERREIRA SOLD. ATIRADOR
DOMINGOS DA SILVA GONÇALVES SOLD. ATIRADOR
ELISIO FERREIRA AROUCA FUR.INFORMAÇ.
FERNANDO BATISTA MAGALHÃES SOLD. ATIRADOR
FERNANDO DA ROCHA CESAR 1º CABO ATIRADOR
FERNANDO DATIA MATOS CUNCA SOLD. COND. AUTO
FERNANDO GASTÃO C. PEREIRA 1º CABO ATIRADOR
FERNANDO NEVES TERRUTA FUR. ATIRADOR
FERNANDO OLIVEIRA DA SILVA SOLD.AUX. DE COZ.
FRANCISCO AMARO RUSSO 1º SARGENTO
FRANCISCO ANTUNES REGAGELAS 1º CABO COND. AUTO
FRANCISCO AUGUSTO CAMPANIÇO BONITO SOLD. ATIRADOR
FRANCISCO DA ROCHA BARBOSA SOLD. ATIRADOR
FRANCISCO JOSÉ SILVA BASTO P.AUT.MET-1ºC..AP
FRANCISCO L. VARELA SOLD. COND. AUTO
FRANCISCO MACHADO BORGES 1º CABO ATIRADOR
FRANCISCO NOVAIS FERR. COUTINHO SOLD. ATIRADOR
FRANCISCO RIBEIRO DE SÁ 1º CABO RADIOTELEG.
GERMANO MENDES DA CUNHA SOLD. ATIRADOR
GIL AUGUSTO NUNES VASCONCELOS FUR. ATIRADOR
ILÍDIO BORGES PEREIRA SOLD. ATIRADOR
JACINTO PINTO DE SOUSA SOLD. ATIRADOR
JERÓNIMO OLIVEIRA ARAÚJO SOLD. ATIRADOR
JOÃO AMBRÓSIO CATARINO SOLD. COND. AUTO
JOÃO ANTÓNIO MOREIRA MASSA SOLD. ATIRADOR
JOÃO DE SOUSA BATISTA 1º CABO ATIRADOR
JOÃO EVANGELISTA P. ALVES SOLD. ATIRADOR
JOÃO JESUS ROSA P.AUT.MET.-COND.
JOÃO M. FIGUEIREDO PONTE P.AUT.MET.ALFERES
JOAQUIM PACHECO OLIVEIRA SOLD. ATIRADOR
JOAQUIM ALBANO DA SILVA LOPES SOLD. ATIRADOR
JOAQUIM AUGUSTO FERREIRA JORGE SOLD. ATIRADOR
JOAQUIM BERNARDO COITO SOLD. COND. AUTO
JOAQUIM DE JESUS SOUSA SOLD. ATIRADOR
JOAQUIM DE MATOS TEIXEIRA SOLD. ATIRADOR
JOAQUIM GONÇALVES TEIXEIRA SOLD. ATIRADOR
JOAQUIM MIRANDA EIRAS P.AUT.MET.-COND.
JOAQUIM PINTO DA ROCHA 1º CABO ATIRADOR
JORGE ARMINDO CARVALHO 1º CABO CANTINEIRO
JOSÉ ALVES RAMADA SOLD. ATIRADOR
JOSÉ DA CUNHA SOLD. ATIRADOR
JOSÉ DELFIM MENDES SOLD. ATIRADOR
JOSÉ DOMINGUES E DOMINGUES FUR. ENFERMEIRO
JOSÉ DUARTE ALVES SOLD. ATIRADOR
JOSÉ ELÍSIO FERREIRA REIS SOLD. ATIRADOR
JOSÉ FERNANDO DOS SANTOS SOUSA SOLD. COND. AUTO
JOSÉ FIGUEIREDO DA SILVA SOLD. ATIRADOR
JOSÉ GONÇALVES DAMIÃO SOLD. ATIRADOR
JOSÉ JACINTO P. CARROMEU SOLD. TRANSMISSÕES
JOSÉ JOAQUIM RODRIGUES DA SILVA MÉDICO
JOSÉ LOPES DE ANDRADE SOLD. ATIRADOR
JOSÉ LOURENÇO LUCAS SOLD. CORNETEIRO
JOSÉ MANUEL CARDOSO MARQUES FUR. ATIRADOR
JOSÉ MANUEL PEREIRA CIBLOTE 1º CABO ESCRITOR.
JOSÉ PAULO ALVES SOLD. COND. AUTO
JOSÉ PEDRO BANDEIRA 1º CABO ATIRADOR
JOSÉ RIBEIRO ROCHA SOLD. ATIRADOR
JOSÉ ROSÁRIO DUARTE SOLD. AUX. DE COZINH
JOSÉ SARAMAGO GUEDES SOLD. COND. AUTO
JULIO MORGADO RODRIGUES ALF. ATIRADOR
LAURINDO BORGES DOS SANTOS SOLD. ATIRADOR
LAURINDO MIRANDA RODRIGUES SOLD. ATIRADOR
LUIS VALENTIN DE MATOS FUR. ATIRADOR
MANUEL A. NEVES PELADO SOLD. ATIRADOR
MANUEL AUGUSTO M. LOPES SOLD. ATIRADOR
MANUEL BARROSO P.AUT.MET.-COND.
MANUEL CORREIA SOLD. ATIRADOR
MANUEL DA COSTA RATINHO FUR. ATIRADOR
MANUEL DA SILVA MOURA SOLD. ATIRADOR
MANUEL DE SÁ OLIVEIRA SOLD. TRANSMISSÕES
MANUEL DOS SANTOS BARÃO ALF. ATIRADOR
MANUEL DUARTE BRANDÃO SOLD. ATIRADOR
MANUEL ELEUTÉRIO T. DA CUNHA 1º CABO CORNETEIRO
MANUEL FARIA PEREIRA P.AUT.MET.-COND.
MANUEL GUERREIRO MEDEIROS SOLD. COND. AUTO
MANUEL LUIZ VIEIRA SOLD. ATIRADOR
MANUEL MARCELINO JOÃO SOLD. COND. AUTO
MÁRIO DUARTE VALEIRAS FUR. A. PESADAS
MÁRIO MANUEL CARDOSO F.DA SILVA FUR. ATIRADOR
MARTINHO PATRÍCIO ALVES SOLD. ATIRADOR
NELSON DOS SANTOS PINTO 1º CABO ATIRADOR
NICOLAU JESUS MANSO ALFERES ATIRADOR
ORLANDO DE SOUSA MAGALHÃES SOLD. ATIRADOR
OSCAR R. BLANDA BATEL FUR. ATIRADOR
RAMIRO AUGUSTO CADAVEZ 1º CABO ENFERMEIRO
VALDEMAR DE SOUSA ALMEIDA SOLD. TRANSMISSÕES
VICENTE C.T. GUERRA 1º CABO ATIRADOR
VIRGOLINO NOBRE PACHECO SOLD. ATIRADOR
VITORINO T. DE CASTRO SOLD. ATIRADOR

AGOSTINHO GOMES MONTEIRO SOLD. ATIRADOR
ALBERTO MOURA DA SILVA (JONAS) 1º CABO ATIRADOR
ÁLVARO DA SILVA BASTOS 1º CABO ATIRADOR
AMÉRICO FELIZ PINTO 1º CABO OP. CRIPTO
ANÍBAL JOÃO GONÇALVES SOLD. ATIRADOR
ANIBAL MORAIS DE CARVALHO
ANTÓNIO GUIMARÃES MARQUES 1º CABO ATIRADOR
ANTÓNIO JOAQUIM GONÇALVES 1º CABO ATIRADOR
ANTÓNIO LOPES MENDES (LADRUGÃES) SOLD.ATIRADOR
ANTÓNIO SEVIVAS MOURA SOLD.ATIRADOR
ARTUR JOSÉ DAMÁSIO ANTUNES SOLD.TRANSMISSÕES
BELMIRO TEIXEIRA NOGUEIRA SOLD. ATIRADOR
CASIMIRO ANTUNES HENRIQUES SOLD. C. AUTO
CRISTALINO L. MARQUES 1º CABO ATIRADOR
CUSTÓDIO ANTUNES LUÍS SOLD. C.AUTO
DAVID MENDES LEMOS 1º CABO RADIOTELEG.
DOMINGOS ALVES LOPES MOURÃO SOLD. ATIRADOR
EDMUNDO JOSÉ SANTOS SOLD. ATIRADOR
FELICIANO ALVES REGO SOLD. ATIRADOR
FERNANDO HENRIQUE DA SILVA FUR. ATIRADOR
FRANCISCO A. CUNHA SOLD. ATIRADOR
FRANCISCO A.S. DA EIRA SOLD. ATIRADOR
FRANCISCO INÁCIO PIRES SOLD. ATIRADOR
FRANCISCO MORAIS MAGALHÃES SOLD. ATIRADOR
FRANCISCO PEREIRA FERNANDES 1º CABO ATIRADOR
JAIME GARCIA GONÇALVES SOLD. CORNETEIRO
JOÃO A.R. LOIVOS SOLD. ATIRADOR
JOÃO MANUEL CALINAS CARVALHO 1ºCABO RADIOTELEG.
JOÃO MANUEL DOS SANTOS SOLD. ATIRADOR
JOÃO PINTO MENDES SOLD. ATIRADOR
JOAQUIM RIBAS DE MOURA SOLD. ATIRADOR
JOSÉ F. ALVES LAMELAS SOLD. ATIRADOR
JOSÉ FIRMINO DOS ANJOS SOLD. ATIRADOR
JOSÉ JOAQUIM CARVALHEIRA MARTINS SOLD. ATIRADOR
JOSÉ MANUEL TEIXEIRA GONÇALVES ALFERES ATIRADOR
LUCIANO PEREIRA DA SILVA GUERRA 1º CABO COZINHEIRO
MANUEL AUGUSTO B.T. ALVES 1º CABO ATIRADOR
MANUEL F. DA SILVA TEIXEIRA SOLD.ATIRADOR
MANUEL FERREIRA TEIXEIRA SOLD. ATIRADOR
MANUEL JOSÉ VILELA SOLD. ATIRADOR
MANUEL MARIA ROQUE 1º CABO MAN. MAT.
MANUEL PINTO (BAIÃO) 1ºCABO ATIRADOR
MANUEL SOARES DA COSTA FUR. MEC. AUTO
MÁRIO MORAIS TEIXEIRA SOLD. ATIRADOR
ORLANDO MARTINS GOMES lº CABO ATIRADOR
ORLANDO CASTELO DE SOUSA SOLD. COND. AUTO
VICTOR MANUEL SIMÕES DA COSTA SOLD.ATIRADOR
Posted by luis de matos at 22:37:06 | Permalink | No Comments »

Ano de 1967

Janeiro /Dia 1 -  Ano Novo foi comemorado, com vinho verde, leitão assado, espumante e bolos em casa do Chefe de Posto.

Dia 16 Saída de Ingoré da 788 e chegada da 1482. Emboscados na pista.

Dia 18 Montagem de armadilhas com uma secção da 1482.

Dia 20 Picagem de estrada até à Bolanha Bissabúri. Levantamos 6 abatizes.

Dia 28 Decorreu uma operação em Sano que fica na fronteira com o Senegal. Incendiámos o acampamento. Apreendemos uma metralhadora, várias granadas de mão, cunhetes de munições, relógios de despertador e outro material. Eu, encontrei uma catana, que ofereci ao comandante da companhia. Nesta operação, houve três mortos confirmados e vários feridos. Foram feitos cinco prisioneiros. Por parte das nossas tropas não houve qualqer baixa e muito menos qualquer ferido. Esta operação foi baptizada com o nome de “Drambuí”.

Dia 30. Encontrando-se a Companhia de Comando e Serviços do meu batalhão, em S. Domingos e pertencendo a esta o Furriel Miliciano, Dinis da Conceição Viegas, o seu pelotão sofreu uma emboscada, tendo este falecido. Foram evacuados 6 soldados. O Dinis esteve comigo no RI 10, em Aveiro, depois fomos para o RI 15, em Tomar, antes de termos sido mobilizados para a Guiné. Era um dos meus melhores amigos e estimado por todos os camaradas. Era natural de Setúbal. Quando a notícia chegou a Ingoré, recebia com muita tristeza, consternação e lágrimas. O regime noticiava assim a sua morte, com publicação num jornal da época, sob o título “Militar morto no Ultramar. O Serviço de Informação Pública das Forças Armadas comunica que morreu em combate, na província da Guiné, o furriel-miliciano Dinis da Conceição Viegas”.

Fevereiro /Dia 13 Operação de reconhecimento na zona de Podame e Antotinha, denominada de “Dardo 2”. 11 guerrilheiros presos e suicídio de um outro no abrigo, do quartel de Ingoré.

Dia 16 Neste dia, foi feita uma operação à base de Canchungo e baptizada com o nome de “Dalidá”. Correu tudo muito bem, onde a minha secção, pela força das circunstâncias, foi a que mais se distinguiu. Tivemos apenas um soldado da minha secção ferido no braço esquerdo e na cabeça com estilhaços provocados pelo disparo da nossa bazuca, não sendo, felizmente nada de grave. Antes de chegarmos ao objectivo sofremos uma emboscada, que, só por sorte não sofremos qualquer baixa. Podia até ter sido eu, visto que era o primeiro da frente. Digo que podia ter sido eu porque era aí que estava concentrado o maior poder de fogo do inimigo. Uma outra secção de outro pelotão, também foi muito fustigada. Foi mais um dia bastante amargurado, entre tantos. Sim, porque nesta terra e nesta guerra, nunca se sabe o que nos espera o dia seguinte. Para já, foi o 2º. dia mais negro na Guiné, porque em 1º., não no pódio, porque aqui não há lugar para vencedores, nem vencidos, estará sempre o dia 20 de Setembro de 1966.

Dia 25 Vinda de Barro para Ingoré do 1º pelotão

Março /Dias 5 e 6 Nomadização das regiões de Fagor, Cedif, Sinchamamadu Masassane com dormida em Barro.

Dia 7  Pelas 12 horas o 2º. Pelotão, que era aquele a que eu pertencia, partiu de Ingoré para S. Domingos, que era uma zona considerada como um “inferno”. Passamos por Antotinha e chegamos ao porto de S. Vicente, no Rio Cacheu. Entramos a bordo de um barco da Marinha, subimos o rio Cacheu, para pernoitarmos no destacamento do Cacheu, onde chegamos às 18,30 horas. Não sei como lá fui parar, mas numa das salas, assisti a um interrogatório feito pela PIDE a elementos inimigos, que nunca pensei que fossem possíveis. Tanta brutalidade feita a um ser humano, meu Deus. Saí daquela sala, com vontade de vomitar e todo suado. É que nunca estive preparado, para aquelas cenas. Não consegui pregar olho a noite inteira, só de pensar nas monstruosidades alí praticadas sobre seres humanos. Aquilo a que temos assistido na imprensa sobre o que os Americanos fizeram no Iraque, ou noutras partes do mundo, comparado com o que assisti no Cacheu, não passam de umas “festinhas”. O que a guerra faz dos homens. Autênticos monstros. Afirmo aqui, solenemente, que nem eu, nem os homens que tinha sobre o meu comando, e todos os camaradas são testemunhas que nunca tocámos com um dedo sequer, em qualquer elemento aprisionado durante as operações levadas a cabo pela companhia. Certo dia, em Ingoré, fui dar com uns soldados, que não eram do meu pelotão e muito menos da minha secção, a quererem linchar um prisioneiro. Devo afirmar aqui, que foi com alguma dificuldade que o impedi. Tive que persuadir aqueles jovens de 20 anos, como eu, a não estragarem a sua vida, pois atitudes do género, dava lugar a julgamento em Tribunal Militar. Enfim, é apenas um pormenor No dia seguinte, lá seguimos viagem, rio acima. Chegámos a S. Domingos às 8 horas da manhã, para nos juntarmos à companhia de Cavalaria nº.1483, comandada pelo capitão Costa Gomes e à Companhia de Comando e Serviços do meu batalhão, o 1894. Lá estava à minha espera o Florimundo Garcia, namorado da Mila, prima da minha mulher. Estava também com ele o Rolo, que era um moço da Barraca de Pau, um bairro dos arredores de Évora, e que hoje é empresário de mármores, em Vila Viçosa. Como moços já conhecedores do sítio, trataram logo de arranjar umas ostras. Comprarm um cesto delas por 10 pesos, o equivalente a 10 escudos na nossa moeda, hoje 5 cêntimos. Não faltou o pãozinho quente, ajudados pelo Manel Martins e pelo seu ajudante, Henrique Jorge, que eram padeiros da companhia nº.1483 e amigos do Florimundo Garcia. Arranjado o petisco, logo o fomos malhar, com umas cervejitas. No dia seguinte, o meu pelotão foi dormir ao Sonco. O Sonco, tinha sido uma tabanca, que os guerrilheiros do PAIGC, tinha varrido do mapa. Então, nós íamos para lá guadar não sei o quê. Era necessário construir abrigos onde passamos a noite, mas com sentinelas em cada abrigo. Muitos mosquitos e fome. Dormir?. “Cá pude”, que o mesmo é dizer, nem pensar. Quem é que podia? Embora sempre houvesse soldados, que o faziam.

Dia 9 O meu pelotão, recebeu ordens para ir cortar cibos para os abrigos do Sonco. Trabalhar a rações de combate.

Dia 11 Montagem de armadilhas. Patrulhar o carreiro de Jégue.

Dia 12 Cortar cibos para o Sonco. Jantar; pão, atum a sardinhas. Dormir “ cá pude”.

Dia 14 Patrulhar o Carreiro dos Americanos. À noite, emboscados na Morcunda.

Dia 18 Ida ao Poilão de Leão. Construção dos abrigos do Sonco e dormida no “hotel Mosquito”.Foi assim que baptizámos os abrigos subterrâneos do Sonco

Dia 20 Carregamento de adobos e emboscados na Morcunda.

Dia 22 Neste dia, saí do Inferno de S. Domingos para Férias a gozar na Metrópole, repartidas por Terena e Évora. Tratei de alugar uma avioneta que foi de Bissau a S. Domingos recolher-me. Era o único passageiro. Já não me recordo do valor do aluguer, embora não interesse muito, mas acho que seriam aí uns 5/6 contos. Era o ordenado de um mês. Mas queria lá saber. É que, a qualquer momento, a gente leva um tiro na cabeça. Recordo-me do Ratinho e do Zorro me dizerem; “É pá, leva-me contigo”. Tem cuidado! Olha que a semana passada caiu uma avioneta, diziam-me os camaradas, que se despediam de mim, na pista. Como se pudesse fazer alguma coisa. Nunca tinha voado num pássaro daqueles. As mãos suavam, o que me obrigava a limpá-las constantemente. O Furriel parece que está nervoso, dizia-me o piloto. Não, que ideia. Quando aquele pássaro levantou voo, notei que abanava por todo o lado, deu uma volta por cima de S. Domingos, depois o Rio Cacheu e a mata. Pela primeira vez experimentava uma nova sensação. Via tudo ao contrário, mais as mãos me suavam. Iniciámos a viagem com voo rasante sobre a mata cerrada. Sem saber o que a mesma escondia, ainda mais suava, só por pensar o que tinha acontecido na semana anterior. É que me lembrava, que uma semana antes, algures, tinha caído uma avioneta, precisamente por voar muito baixo, tendo sido atingida pelos guerrilheiros do PAIGC.

Abril /Dia 10 Emboscada na estrada do Sonco. Alferes Gonçalves partiu um pé. Apreendemos uma fita de metralhadora.

Dia 17 Operação “Desgaste”.

Dia 22 Reconhecimento a zona de Endodge.

Dia 25 Operação “Danil”. À noite ocorreu um ataque a S. Domingos.

Maio /Dia 7 Ataque a S. Domingos. Eu não estava presente, pois encontrava-me de férias no continente.

Dia 9 Vindo da Metrópole, acabei de chegar das minhas mais que merecidas férias, ao inferno de S. Domingos. Em calções, o ex-Furriel Miliciano Atirador, Manuel da Costa Ratinho, natural de Cunheira, concelho de Ponte de Sor, residente em Alverca do Ribatejo, o 2º Sargento Ramalho, natural de Montoito, (eu, em farda de passeio) ex-Furriel Miliciano Atirador, Luís José Valentim de Matos, natural de Terena, concelho de Alandroal, residente em Évora e o Ex-Furriel Miliciano Vagomestre, Celestino António Zorro, natural de Santo André, concelho de Estremoz e residente em Borba. Trouxe comigo na bagagem uns paios alentejanos, para entregar ao Florimundo Garcia, que a tia Bernarda me pediu para levar ao futuro genro.

Dia 26 Jantar em Nhambalam. Operação a Bonhaque e uma sentinela IN, ferida.

Posted by luis de matos at 17:31:26 | Permalink | No Comments »

Ano de 1968

 

FOTO CEDIDA PELO NOSSO CAMARADA MÁRIO SILVA 

Maio /Dia 10 - Embarquei de regresso à metrópole, onde cheguei no dia 16 do mesmo mês. Um jornal da época, publicou a seguinte notícia, sob o título “Regresso de tropas da Guiné”.Entra amanhã no Tejo, cerca das 8 horas, o paquete “Niassa”, que transporta, de regresso da Guiné, um contingente militar que terminou a sua comissão de serviço.

O desembarque está previsto para as 10 horas, na Estação Marítima de Alcântara. O ministro do Exército será representado pelo general José de Oliveira Vitoriano, Director dos Serviços de Pessoal”.

Posted by luis de matos at 15:23:10 | Permalink | No Comments »

Ataque inimigo ao aquartelamento de Ingoré e Ingorézinho

Este ataque teve início à meia-noite e vinte minutos do dia dois de Dezembro de 1967 e veio a terminar às 11,45 horas após forte reação das nossas tropas, isto é, durou toda a noite e todo o dia seguinte.

Depois de quatro meses e meio de parmanência no destacamento do Sedengal, no dia um de Dezembro de 1967, o meu pelotão regressou a Ingoré, para aí se juntar ao resto da companhia. Eram 16 horas, quando chegámos ao quartel. Arrumámos toda a nossa bagagem e fomos jantar. Deitámo-nos por volta das 21 horas. O ataque é iniciado com rajadas de morteiro 82.60 e de armas automáticas que se faziam ouvir de quase todos os lados, inclusivé de dentro da própria tabanca. Logo no início uma morteirada atingiu a oficina dos mecânicos e um quarto onde estes dormiam, tendo ficado gravemente ferido o soldado mecânico auto “Bodas” e ligeiramente ferido o 1º. Cabo mecânico Cristalino Lopes. O Soldado Bodas, de seu nome completo António Vieira Bodas, natural de Aveiro, foi evacuado para o Hospital de Bissau.

Passados 3 ou 4 minutos após o início do ataque, saía uma auto-metralhadora para Ingorézinho e mais duas para a tabanca de Ingoré pela estrada que circunda a referida tabanca. A confusão era tanta, era preciso organizar o pessoal mas a minha secção foi das primeiras a sair do quartel com destino a Ingorézinho, após receber ordens do Capitão. Cerca de 10 minutos depois do início, já estava a sair um unimog com duas secções de atiradores para Ingorezinho para reforçar e defender aquela tabanca. O fogo inimigo caía com certa intensidade o que fêz com que se incendiássem várias tabancas no lado Leste de Ingoré, tendo o Capitão Costa Gomes mandado sair um grupo de combate para guarnecer aquele sector. Do mesmo modo, as ordens foram dadas a outros grupos de combate para guarnecerem toda a periferia da tabanca, tendo esta ficado cercada. Entretanto, forças de pequeno efectivo, a nível secções de caçadores actuaram dentro da tabanca em franca caça ao inimigo, ou núcleos localizados, com G3 a granadas de mão, enquanto o morteiro 81 batia toda a estrada de “Barro”, que fica mesmo ao lado de Ingorézinho, na direcção da fronteira do Senegal e na área de “Madina”, que era tida como muito activa contra as nossas tropas. As auto-metralhadoras patrulhavam permanentemente a tabanca em todas as direcções, fazendo remuniciamentos tanto aos nossos camaradas de Ingoré como de Ingorézinho e escoltando viaturas que transportavam munições. Precisamente na zona onde me encontrava com a minha secção e que já tinha sido reforçada com outros grupos de combate, foram referenciados inimigos na bolanha entre Ingoré e Ingorézinho. Entretanto, o comandante as forças, o capitão Costa Gomes deu-nos ordens para cercármos a bolanha e batida da mesma. Esta ordem começou de imediato a ser cumprida, dispositivo este que se manteve por algum tempo. Mal rompeu o dia, iniciou-se uma batida aos elementos fora do cerco que tentavam recuperar os cercados.

O combate era tão intenso, ao mesmo tempo confuso e difícil, que o comandante não teve outro remédio senão pedir apoio aéreo que actuou das 7,30 às 9 horas sobe as zonas onde se encontrava o inimigo, depois de se sinalizarem devidamente as nossas tropas com telas previamente distribuídas aos elementos mais avançados. Entretanto, o soldado Modas, que se encontrava ferido desde o primeiro momento do ataque, mas devidamente assistido pelo médico da companhia, foi evacuado por helicóptero. As nossas forças continuaram batendo pequenas matas fora do cerco e efectuando ataques à granada de mão em matas dentro da tabanca de Ingoré. Como já se referiu, aquele inferno parecia não ter fim, foi pedido apoio aéreo, pelo que às 9,30 horas chegava nova parelha de T6 que actua até às 11.00 horas. Foi precisamente um destes aviões que acabou por matar o 1º.Cabo Manuel Pinto, mais conhecido por “Baião”. O moço não tinha camisa, pois andava em tronco nú. O piloto, deve-o ter confundido com um elemento inimigo, disparou um roket e foi o fim de uma vida. Foi um erro. Aconteceu. É revoltante. Mas como na guerra nada é normal, só temos que nos conformar e pedir a Deus que o tenha guardado em bom lugar. Este militar era o apontador de bazuca do meu pelotão. Foi de imediato feita a evacuação para o quartel e às 11.15 horas foi evacuado para Bissau. Meia hora depois chega nova parelha de T6 que depois de sobrevoar a zona atingida, retirou por ter terminado o tiroteio. Foi um duro golpe nos nossos soldados, pois o “Baião” era um rapaz alegre e amigo do seu amigo. E também por ter sido o primeiro morto em combate, ao fim de cerca de 17 meses de permanência na Guiné. O cerco manteve-se, organizaram-se equipas que bateram todas as matas, observavam-se aquelas árvores que nos ofereciam dúvidas onde poderia estar algum inimigo e quintais. Fazem-se rusgas dentro da tabanca, actuando pelo resto do dia. A tabanca continuou cercada por todo o dia seguinte até cerca das 21.00 horas. Prenderam-se alguns elementos da população que por qualquer motivo se consideravam suspeitos. Calcula-se que os atacantes eram cerca de 400 e, segundo informações, até pelo sangue visto no terreno, o inimgo teria sofrido muitos mortos e feridos. Estou plenamente convencido, que este ataque levou tanto tempo, devido à rápida reação das nossas tropas, por termos cercado o inimigo e este não poder retirar.

Posted by luis de matos at 15:17:09 | Permalink | Comments (2)

Tuesday, July 3, 2007

Acontecimentos - Ano 1966

No dia 26 de Agosto, a companhia saiu de Bissau com destino a Mansoa, cidade que fica a 60 Km de Bissau. A viagem correu bem, sem incidentes, embora muito perigosa. O quartel não era muito mau, mas os 13 furriéis tiveram que dormir num quarto que, à partida, só devia ser para duas pessoas. Evidentemente, que no dia seguinte fomos procurar alojamento em casas particulares, aquilo a que se chamava quartos civis. Recordo-me do sargento Baião, natural de Évora e que já estava no fim da comissão me ter dito, que naquele quarto, estiveram alojados militares que tinham contraído tuberculose, em virtude de terem participado numa das maiores operações levadas a cabo na Guiné, e que a alimentação estaria longe de ser razoável. Na óptica dele, este teria sido um dos motivos porque contrairam a doença. Embora nos tivesse dito, que estivessemos descansados, que tudo tinha sido desinfectado, nenhum camarada lá quiz dormir, mais do que uma noite.

Dia 29 Emboscada ao 1º Pelotão na estrada de Bissau. Fomos em seu socorro.

Dia 30 Escolta à ponte de Bráia.

Setembro /Dia 7 Operação Vaca na região de Encheia.

Dia 9 e 14 Golpes de mão à área de Jogudul.

Dia 17 Partida de Mansoa para Bissorã. Segurança ao quartel e ronda ao mesmo. Jogos de pingue-pongue.

Dia 20. No dia 20 de Setembro de 1966, o meu pelotão e uma secção de milícias, receberam ordensdo Capitão Costa Gomes, para ir recolher lenha à mata e trazê-la para o quartel. Tínhamos um mês de Guiné. Éramos aquilo a que se chamava de “periquitos”, por termos pouco tempo de guerra. Estávamos na época das chuvas. Saímos do quartel, a pé para picagem da estrada, pois era uma zona muito perigosa e havia que ter o máximo das cautelas. Da coluna faziam parte duas viaturas para o transporteda lenha, e um unimog que tinha montado um abrigo, em chapa de ferro, bem grossa, com uma metralhadora, para nos dar apoio, caso viesse a ser necessário, pois quer o apontador da metralhadora, quer o condutor, eram militares já com provas dadas, uma vez que já tinham 17 meses de Guiné, enquanto que nós, tínhamos um mês e ainda não tínhamos dado um único tiro. A coluna deixou a estrada, que tínhamos acabado de picar e embrenhámo-nos no mato. O capim era mais alto do que as viaturas. Andamos cerca de 2 Kms. Chegados ao local para recolher a lenha, as viaturas começaram a ficar atascadas. Quanto mais se tentava tirar dalí as viaturas, maior era o lodaçal e as baterias das mesmas, cada vez mais fracas, até que deixaram de funcionar.

  • E agora? Bom, só há uma maneira de sairmos daqui, diz o alferes Manso. E pergunta? -

  • Quem é que se oferece para ir ao quartel buscar baterias?

  • Eu que me encontrava junto dele, disse-lhe: Vou eu meu alferes. Mal parecia que o não fizesse, uma vez que os outros furriéis, estavam ligeiramente afastados a cuidar da segurança.

  • Então, está bem. Leve os seus homens e vá. Olhe, Matos! Como já picámos a estrada quando viemos para cá, já não é preciso picá-la novamente, e assim, depressa lá se põe no quartel. Logo no início da marcha, o condutor do unimog, que por coincidência também se chamava Matos, diz-me:

  • Ó meu furriél, sente-se aqui ao meu lado, sempre vai um bocadinho mais descansado.

  • Não. Eu nunca largo os meus homens, e agora, também não. Sabe, nem me sentia bem eu ir aí montado e os moços a pé. Mas olhe, você é que pode ir andando, e quando chegar ao cruzamento, quando virámos prá qui, o meu amigo espera por nós, e depois, uma vez que já picámos a estrada, é só andar rapidamente para o quartel.

  • Estava longe de imaginar, que seria a última vez que falava com o moço. O condutor, assim fêz. Adiantou-se em relação ao grupo, talvêz, não mais de 50 metros. Quando estávamos já muito perto da viatura, sofremos uma emboscada, de que resultou a morte do condutor, o apontador da metralhadora gravemente ferido e um soldado milicia, também ferido, embora este, sem gravidade. Apesar de gravemente ferido, o Cabo apontador da metralhadora, acho até que nunca soube o seu nome. Que falha imperdoável esta! Não admira, era periquito…. O moço, ainda fez várias rajadas, até que a arma se encravou. Era uma Breda, daquelas da época da Guerra Mundial. Mal o tiroteio começou, dois ou três milicias foram a correr ao quartel buscar reforços, enquanto que outros, foram ao encontro do alferes e dos restantes camaradas que tinham ficado junto às viaturas, e um ou dois ficaram comigo a responder ao inimigo invisível. Recordo-me de ouvir uma série de obscenidades, ditas pela rapaziadado Norte, pois eram todos Nortenhos. Enquanto eu, revoltado com o que nos tinha acabado de acontecer, gritava bem alto. “Venham cá seus cabrões…. filhos da puta”. Eu sei lá…Foi uma sorte eles não terem vindo, senão tínham-nos apanhado à mão. É que eles fizeram o disparo e fugiram. O tiroteio, não durou mais de 2 minutos. Vimos depois o local, donde tinha sido disparado o roket, que vitimou o soldado condutor, Matos. Do outro lado da estrada, a uma distância não superior a cinco metros, entre muitas, havia uma árvore, cujas pernadas faziam uma forca, e foi aí que o inimigo asssentou o lança-roket, para mandar a roquetada. Quando os soldados milícias chegaram ao quartel e disseram que morreu o Matos, os camaradas da minha companhia, que não sabiam o nome do condutor, pensaram que se tratava do Furriel Matos. A notícia, rapidamente se propagou como o fogo de um rastilho.Nem queriam acreditar. Efectivamente, também podia ter sido eu, caso me tivesse sentado ao lado do condutor. Mas o destino não quiz que isso acontecesse. Quem sabe, até se houve alí a mãozinha da Nossa Senhora da Boa Nova, a padroeira da minha terra. Fôsse lá o que fôsse, ainda hoje me parece um milagre. Não tinha que ser. Todos os anos, recordo o dia de S. Mateus, por este ser um dia que muito me marcou e continua a marcar na minha vida. Por mais que o tente esquecer, ele vem-me sempre à memória. Acho que a partir daí, comecei a ficar um pouco “apanhado do clima” ou “cacimbado”, como se dizia na Guiné.

Passaram cerca de 30 minutos, quando chegaram os reforços. Já tinha acabado o tiroteio. Não faltaram os abraços dos camaradas e palavras de conforto. Por outro lado, chorava-se a morte dum camarada. Ajudado por um ou dois soldados, retirei o ferido de dentro do abrigo da viatura. Com lágrimas de revolta, conjuntamente com os soldados que tinham ficado comigo, começámos a recolher o que foi possível recolher do resto do corpo do infeliz condutor, para as juntar ao que restava no assento da viatura. Que cena horrível e macábra, que jamais poderei esquecer.

Nunca senti que a linha da vida, tivesse estado tão perto da morte. Não há vez nenhuma, que veja a fotografia da viatura acidentada, toda a fumegar, que não imagine alí o pobre do soldado Matos, cortado ao meio pelo roket, que as lágrimas não me rolem pela cara abaixo. É muito difícil a gente esquecer-se de uma situação destas, mesmo que já tenham passado várias décadas. Será que sou diferente dos outros? Parece-me que não, pois tenho, cabeça, tronco e membros como os outros. Enfim, seja lá o que fôr. Finalmente, procedeu-se ao reboque da viatura inutilizada, que o seu condutor tinha baptizado com o nome de “Paulucha”. Nunca cheguei a averiguar o porquê deste nome. Seria em homenagem a um seu ente querido? Talvêz.

Seguidamente, fomos recolher as viaturas que tinham ficado a cerca de 2 Kms, mas já em incidentes. Foi assim, o meu baptismo de fogo. Foi logo pra doer, e bater bem no fundo.

Quarenta anos depois, no dia seis de Junho de 2007, decorreu o 10º. convívio da companhia 1590 na Foz do Arelho, num restaurante de propriedade do camarada Joaquim Bernardo Coito, que foi Soldado Condutor Auto. Durante o repasto, o Abílio da Silva Vieira, que foi 1º. Cabo Atirador, da minha Secção, disse-me, que uma irmã do condutor Matos, reside também em Vila Nova de Gaia, próximo da sua residência. Um dia, calhou em conversa e o Abílio disse-lhe: “Olhe, sabe uma coisa, o seu irmão morreu ao pé de mim”. Não sei como acabou depois a conversa, que não perguntei ao Abílio. Mas dá para imaginar.

Embora tardiamente, pedi ao Abílio que, em meu nome, desse uma palavrinha de conforto à irmã do Matos, cuja morte, um dia chorei nas matas da Guiné, entre Bissorã e Barro. Habituado que estou, a tratar com todo o tipo de Imprensa, em que as nossas emoções não devem ou deviam contar, até para sermos isentos e imparciais, segundo o Código Deontológico, não consigo referir-me a este triste episódio, sem deixar cair algumas lágrimas. E devo dizer que não sinto vergonha por isso.

Dia 22 Emboscada à saída de Bissorã para Mansoa. 5 guerrilheiros inimigos mortos com armas abandonadas. A 816 levantou duas minas. Um milícia morto. Noite de 22 para 23 de Setembro. Golpe de mão à área de Jogudul.

Dia 25 Saída de Mansoa para Bissau.

Outubro /Dia 9 Coluna e escolta de Bissau para Mansoa, Bissorã e Olossato com passagem pela ponte Maqué. Viaturas e muita lama. Operação a Jracunda.

Dia 10 Saída de Olossato. Emboscada. Passagem por Bissorã, Mansoa, Safim, Nhacra e Bissau.

Dia 24 1º Grupo de combate vai para Massabá, 3º. Para Bissorã e 0 2º. Para Olossato. Construção da ponte de Maqué.

Dia 25 Dormida no abrigo da ponte de Maqué. Muitos mosquitos e vinho.

Dia 26 Saída de Olossato para Bissau. Bissorã, Mansoa, sem picagem de estrada por ser noite. Chegada a Bissau às 22 horas.

Novembro /Dia 30 Saída de Bissau para Ingoré do 2º. Pelotão. Passagem por Safim, João Alandim, Cacheu, Bula, S. Vicente e Ingoré.

Dezembro /Dia 2 Verificação e montagem de armadilhas na fronteira.

Dia 4 Patrulhamentos na zona de Carabana Cherie.

Dia 6 Chegada da companhia a Ingoré. 2º. Grupo de combate emboscado até às 20.30 horas e jantar às 22 horas.

 Dia 8 1º pelotão vai para Barro. 5 guerrilheiros mortos. Uma mauser automátia apreendida.

Dia 10 Picagem da estrada ate ao Sedengal. Há noite emboscados na pista.

Dia 13 Patrulhamento à zona de Carabana Balanta. Dois guerrilheiros presos no acampamento de Naga.

Dia 15 Patrulhamento à zona de Carabana Balanta.

Dia 17 Emboscados na estrada do Sedengal.

Dia 20 Montagem e verificaão de armadilhas. Emboscados na pista.

Dia 22 Emboscada desde as 4 da manhã às 15 horas Fome e calor.

Dia 24 Dia de Natal. Festa de despedida da 788. Ronda ao quartel. Bebedeiras em Ingoré.

Dia 28 Faço anos a 28 de Dezembro e neste dia fiz 22 anos. Mas, a guerra é a guerra. E, neste dia, a companhia foi fazer uma operação junto à fronteira do Senegal tendo sido baptizada com o nome de “Dragão”. Diz-se que fizemos 5 mortos ao inimigo,nunca os vimos, mas diz-se, enquanto que, da nossa parte, apenas um soldado nativo levou um tiro na boca, tendo sido evacuado para Bissau. Que sorte a dele e que acontecimento raro, dizia-mos nós uns para os outros.

Dia 30 e 31 Emboscados na pista e ponte de Ingoré.

Posted by luis de matos at 22:07:10 | Permalink | No Comments »

Dados Pessoais

Luís José Valentim de Matos, natural de Terena (S. Pedro), Concelho de Alandroal, Distrito de Évora - Portugal. Capricorneano, nascido em 1944.

Morada: Av. Combatentes da Grande Guerra, 30-1.º Dto. 7000-Évora

email: Luisdematos5@gmail.com

É casado com Maria Antonieta R.M.V.de Matos, aposentada da Direcção Geral de Viação

É pai do Paulo de Matos, Licenciado em Engenharia de Recursos Hidrícos pela U. Évora, Pós- Graduação em Engenharia Sanitária pela Universidade Nova de Lisboa. Trabalha nas Águas do Centro Alentejo.

É pai de Sandra Cristina de Matos, Licenciada em Ensino - Prof. do 2.º Ciclo, variante Educação Visual e Tecnológica pela ESE de Portalegre. É profª. nas Furnas e reside em Ponta Delgada.

É pai de João Pedro de Matos, desenhador da Construção Civil-NívelIII. Frequentou a Universidade de Beja no Curso de prf. do 2º.Ciclo- Variante Educação Visual e Tecnológica. Desempregado.

Posted by luis de matos at 20:48:10 | Permalink | Comments Off

Monday, July 2, 2007

Partida para a Guiné

  
 Paquete Ana Mafalda (Fotos gentilmente cedidas pelo camarada e amigo Mário Silva)

 

Lisboa, 3 de Agosto de 1966
Embarquei no paquete Ana Mafalda com destino à Guiné, para aí cumprir o serviço militar, integrado na Companhia de Caçadores nº.1590, pertencendo esta, ao Batalhão de Caçadores nº.1894.
A partida teve lugar no Cais Marítimo de Alcântara. Muitos familiares dos militares que embarcaram, choravam, gritavam e acenavam com lenços brancos. Muitos camaradas também choravam, porque alguns deles, ou já eram casados, ou porque também já tinham filhos e estes estavam ao colo das mães a despedirem-se deles, porque iam partir para a guerra. Eu não tinha ali qualquer familiar, ou amigo próximo. Embora não me rolassem as lágrimas pela cara abaixo, estava um pouco comovido com todo aquele ambiente à minha volta. Passamos a Ponte e levaram-nos por esse mar fora.
Os dias nascem e voltam a nascer. Sucessivamente. Como é normal, só vejo mar e mais mar, nuvens, o barco e o ruído dos motores. À muito que deixei de ver as gaivotas. Essas já ficaram para trás, pois já vou no alto mar. Passo grande parte do tempo debruçado no convés, com o olhar fixo sobre as ondas ou as águas calmas do mar, como que a tentar descobrir que mundo estaria por baixo de mim. Outras vezes vou-me deitar no camarote, enquanto que os meus camaradas vão jogando umas partidas de cartas. Os graduados estão alojados em camarotes duplos, enquanto que os soldados vão repartidos por dois ou três porões, como se de gado se tratasse. Vários soldados pedem ao furriel vagomestre Zorro que lhe compre ums sandes e tabaco, o que este faz e desce ao porão para lhe levar a encomenda. As refeições dos graduados são servidas por empregados que usam papilon e acompanhadas pela orquestra privativa do navio, a que eu assisto mesmo sem comer.
Nos porões, vão várias centenas de jovens amontoados, sem quaisquer condições de higiene. Muitos vomitam,sendo necessário logo recorrer a baldes com água e vassouras para não ficar um cheiro nauseabundo. Dá-me pena ver aqueles pobres rapazes naquelas condições sub-humanas. Manifestei o meu desagrado e quase a minha revolta sobre esta situação ao Ratinho, porque é aquele camarada em quem mais deposito confiança. Não por que outros não mereçam a minha consideração, mas porque passamos muito tempo juntos no mesmo pelotão, o que é normal. Enfim, que se pode fazer? Quando sabemos que o analfabetismo e não só, grassa no país? Há que continuar viagem a caminho da guerra, sem sabermos se regressamos ou não.Mas dá para pensar em muita coisa. É tudo tão solitário, até não chegarmos a Cabo Verde. Aí, vamos estar um dia ou pelo menos umas horas em terra firme. Depois voltará a ser tudo como antes. Solidão, saudades dos entes queridos e mais solidão. Antes de iniciar a viagem, tomei uma decisão. Durante os nove dias, que vai durar a viagem, para não enjoar, não vou meter nada no estômago, a não ser quando estiver em terra firme. Só vou beber água. Mentalizei-me que tem que ser assim. E porquê? Porque em Outubro de 1965, fiz uma viagem no Paquete Funchal com destino à Madeira, onde fui dar uma recruta e durante a viagem, ia vomitando as tripas, chegando enjoadíssimo ao Funchal. Então alguém me aconselhou, que nestas condições, o melhor que há a fazer, é comer o menos possível e acima de tudo só beber líquidos. Estou a seguir este conselho e por enquanto, estou a dar-me bem.
Cabo-Verde, 7 de Agosto de 1966
O Paquete Ana Mafalda, fundeou no Porto Grande, na Ilha de S. Vicente. Ficamos um dia. Aproveitei para dar um passeio pela cidade do Mindelo, de cerca de 20.000 habitantes,1 com as suas casas senhoriais Joaninas e severos prédios pombalinos. Com outros camaradas, passamos o tempo a tirar fotografias e apontamentos, que concerteza irão ser muito úteis no futuro. 

 Cabo Verde - S. Vicente Cidade do Mindelo - Passagem para a Guiné no Paquete  Mafalda - da esquerda para a Direita ex-furrieis milicianos Grilo, Luís de Matos e Francisco Silva 

  
Logo aqui, vou começar a armazenar algumas ideias no caixote dos “pirolitos”. É o meu primeiro contacto, com o povo africano. Constato o calor humano das suas gentes. Aqui e ali se ouve um instrumento de cordas, talvez uma viola e bonitas vozes interpretando a “morna” e a “coladera”. Efectivamente, respira-se um ambiente novo. Recordo-me de me terem manifestado um certo desalento, porque há nove anos que não chovia na ilha, e se pudessem iam viver para Lisboa.
Cabo-Verde, 9 de Agosto de 1966
Saimos do porto de S. Vicente com destino à ilha do Sal. O navio fundeou no Porto de Santa Maria. O sal,2 é a principal indústria da ilha que se orgulha de ter sido pioneira no que se refere a transportes, pois o sal é transportado em vagonetas, cuja força motriz é o vento que faz deslizar os vagões por meio de velas içadas, como se fossem barcos. A grande dificuldade da ilha é a falta de água, o que faz com que a vegetação seja praticamente inexistente. Apenas existem alguns pequenos rebanhos de cabras, que comem tudo, nomeadamente, papel de jornal. Quando passava por um caminho, vinha um daqueles pequenos rebanhos de cabras na minha direcção. Só existia pó e pedras, nada mais. Não faço a mínima ideia do que se alimentam aqueles animais, mas concerteza, que para existirem, têm que ter alimento, ainda que seja pouco. O clima já se nota diferente daquele a que estamos habituados. Para limpar o suor da testa, puxei pelo lenço verde, que fazia parte do espólio militar, inadvertidamente deixei-o cair no pó avermelhado do caminho. Uma das cabras que passava, muito rapidamente o abucanhou, desaparecendo em seguida. Foi uma gargalhada unânime, por parte dos camaradas que me acompanhavam, os três furriéis-milicianos, Grilo, Ratinho e Fernando Silva.
Disseram-me que faltam dois dias para chegar à Guiné. Parece-me que todos estamos desejosos de pôr o pé em terra firme e já que tem que ser, que seja.
Bissau, 11 de Agosto de 1966
Finalmente, cheguei a Bissau no dia 11, às 14 horas.
O desembarque só se verificou no dia seguinte, às sete da manhã, com desfile pela Av. Marginal, tendo a companhia sido alojada no quartel da Amura, mesmo virado para o Rio Geba. Amura,3 é um nome crioulo, que significa muralha, daí o nome de Fortaleza da Amura.
Cheguei à Guiné, 520 anos depois de, no mês de Junho de 1446, Nuno Tristão,4 avistar as margens baixas dos rios da Guiné.
A Fortaleza, foi fundada em 1696,5 pelo capitão-mor José Pinheiro, reconstrução principiada em 1753 sob o traço de Frei Manuel de Vinhais Sarmento e teve continuação 13 anos mais tarde, sob a direcção do coronel Manuel Germano da Mata. Devido à pedra empregue na construção da fortaleza, ser de origem ferruginosa, desgastando-se rapidamente com o tempo, a muralha teve que ser reconstruída novamente em 1946. Era então governador, o Almirante Sarmento Rodrigues. A fortaleza, tem um terreiro quadrado com 150 metros, sombreado por mangueiras, cujo fruto é muito saboroso.
A companhia foi instalada na Amura, de forma a que todo o pessoal se sinta o melhor possível, o que é difícil. Fui arrumar as minhas coisas. Arrumar para quê?. Pensei que o melhor é continuarem na mala. Não há armários, nem estantes, apenas uma cama de ferro com uma rede mosquiteira. Dizem-me que é por causa dos mosquitos não nos picarem. Parece que são gigantes, fazem umas grandes babas e sugam-nos o sangue.
Findo este trabalho, o capitão deu folga a todo o pessoal para conhecer a cidade. Logo na primeira noite, juntei-me a um pequeno grupo para irmos dar uma volta, para conhecermos um pouco da noite guineense. O furriel miliciano Charneca, que é natural de Beja, ou arredores, não sei bem, pertence à CCS do meu batalhão, o 1894, disse-me que há um nosso camarada, já “velho”, o que equivale a dizer que não é “periquito”, que está no rádio do Quartel-General com o Marco Paulo, um artista da rádio e da TV e também alentejano, de Mourão. Vamos lá ter com eles, para nos mostrarem como é isto. Ou pelo menos, aquele meu amigo vai connosco. Estava uma noite escura como breu. Não me recordo de mais nada. O que sei é que me vi dentro dum táxi, com o Charneca e o tal amigo do QG, por um trilho, em que o capim era bem mais alto que o nosso transporte e fomos parar a uma vivenda onde havia música. Muita música cabo verdiana e dança, frangos no churrasco, cerveja e whisky. Não conseguia deixar de pensar que me podiam cortar a cabeça com uma catana. É que a gente ouvia contar cada estória!. Mas ao mesmo tempo, tinha uma certa confiança no tal camarada mais velho. Se ele estava ali e continuava vivo, é porque o local e as pessoas eram de confiança. Há-de ser o que Deus quiser. Coração ao largo, pensei cá prós meus botões.
Dançámos, comemos e bebemos, pela noite fora. Quando aquela brincadeira acabou, regressámos no mesmo táxi. Chegados a Bissau, o nosso motorista foi deixando os passageiros conforme as orientações que recebia. Pela minha parte, fui parar a uma tabanca, mesmo em frente ao quartel da Amura, chamada “Pilão”. É uma zona pobre, suja e miserável. Sem luz eléctrica, sem esgotos e água canalizada. Ali passei o resto da noite, acariciando as roliças coxas de uma bonita mulher, pele acetinada de cor de café. Era de origem cabo-verdiana nascida em Bissau.
Quando acordei, já o sol ia alto. Levantei-me aos trambolhões e pus-me a caminho, sem saber bem onde estava. Deve ser por aqui, pensei. Não demorou muito tempo para ver que estava enganado. O caminho era precisamente o inverso. Quando dei por mim, estava junto ao Palácio do Governador. Tive que descer toda a Avenida que ia dar quase ao quartel da Amura, quando o “Pilão”, onde tinha pernoitado, bastava apenas atravessar a rua e estava no quartel. Mas não, o azimute traçado não resultou, nem podia. Foi assim a minha primeira noite na Guiné. E a única. Nunca mais me deixei influenciar por este tipo de passeios. No dia seguinte soube, que é muito perigoso andar pelo “Pilão” à noite. Foi um grande risco e ingenuidade da minha parte.
Na Amura passei momentos de grande solidão e tristeza, outros menos maus, próprios de quem tem 20 anos, associados ao momento de guerra que se vive. Penso se aqui em Bissau é mau, então quando for para o mato é que vai ser bonito.
1Crónica da Viagem do Presidente Américo Thomaz à Guiné e Cabo Verde em 1968, publicação da Agência Geral do Ultramar, pág. 213

2Crónica da Viagem do Presidente Américo Thomaz à Guiné e Cabo Verde em 1968, publicação da Agência Geral do Ultramar, pág. 213

3Crónica da Viagem do Presidente Américo Thomaz à Guiné e Cabo Verde em 1968, publicação da Agência Geral do Ultramar, pág. 131

4Diário da Viagem Presidência às Províncias de Guiné e Cabo Verde, em 1955, publicação da Agência Geral do Ultramar, pág. 44

5Crónica da Viagem do Presidente Américo Thomaz à Guiné e Cabo Verde em 1968, publicação da Agência Geral do Ultramar, pág. 131

Posted by luis de matos at 21:37:51 | Permalink | No Comments »