Wednesday, July 4, 2007

Ataque inimigo ao aquartelamento de Ingoré e Ingorézinho

Este ataque teve início à meia-noite e vinte minutos do dia dois de Dezembro de 1967 e veio a terminar às 11,45 horas após forte reação das nossas tropas, isto é, durou toda a noite e todo o dia seguinte.

Depois de quatro meses e meio de parmanência no destacamento do Sedengal, no dia um de Dezembro de 1967, o meu pelotão regressou a Ingoré, para aí se juntar ao resto da companhia. Eram 16 horas, quando chegámos ao quartel. Arrumámos toda a nossa bagagem e fomos jantar. Deitámo-nos por volta das 21 horas. O ataque é iniciado com rajadas de morteiro 82.60 e de armas automáticas que se faziam ouvir de quase todos os lados, inclusivé de dentro da própria tabanca. Logo no início uma morteirada atingiu a oficina dos mecânicos e um quarto onde estes dormiam, tendo ficado gravemente ferido o soldado mecânico auto “Bodas” e ligeiramente ferido o 1º. Cabo mecânico Cristalino Lopes. O Soldado Bodas, de seu nome completo António Vieira Bodas, natural de Aveiro, foi evacuado para o Hospital de Bissau.

Passados 3 ou 4 minutos após o início do ataque, saía uma auto-metralhadora para Ingorézinho e mais duas para a tabanca de Ingoré pela estrada que circunda a referida tabanca. A confusão era tanta, era preciso organizar o pessoal mas a minha secção foi das primeiras a sair do quartel com destino a Ingorézinho, após receber ordens do Capitão. Cerca de 10 minutos depois do início, já estava a sair um unimog com duas secções de atiradores para Ingorezinho para reforçar e defender aquela tabanca. O fogo inimigo caía com certa intensidade o que fêz com que se incendiássem várias tabancas no lado Leste de Ingoré, tendo o Capitão Costa Gomes mandado sair um grupo de combate para guarnecer aquele sector. Do mesmo modo, as ordens foram dadas a outros grupos de combate para guarnecerem toda a periferia da tabanca, tendo esta ficado cercada. Entretanto, forças de pequeno efectivo, a nível secções de caçadores actuaram dentro da tabanca em franca caça ao inimigo, ou núcleos localizados, com G3 a granadas de mão, enquanto o morteiro 81 batia toda a estrada de “Barro”, que fica mesmo ao lado de Ingorézinho, na direcção da fronteira do Senegal e na área de “Madina”, que era tida como muito activa contra as nossas tropas. As auto-metralhadoras patrulhavam permanentemente a tabanca em todas as direcções, fazendo remuniciamentos tanto aos nossos camaradas de Ingoré como de Ingorézinho e escoltando viaturas que transportavam munições. Precisamente na zona onde me encontrava com a minha secção e que já tinha sido reforçada com outros grupos de combate, foram referenciados inimigos na bolanha entre Ingoré e Ingorézinho. Entretanto, o comandante as forças, o capitão Costa Gomes deu-nos ordens para cercármos a bolanha e batida da mesma. Esta ordem começou de imediato a ser cumprida, dispositivo este que se manteve por algum tempo. Mal rompeu o dia, iniciou-se uma batida aos elementos fora do cerco que tentavam recuperar os cercados.

O combate era tão intenso, ao mesmo tempo confuso e difícil, que o comandante não teve outro remédio senão pedir apoio aéreo que actuou das 7,30 às 9 horas sobe as zonas onde se encontrava o inimigo, depois de se sinalizarem devidamente as nossas tropas com telas previamente distribuídas aos elementos mais avançados. Entretanto, o soldado Modas, que se encontrava ferido desde o primeiro momento do ataque, mas devidamente assistido pelo médico da companhia, foi evacuado por helicóptero. As nossas forças continuaram batendo pequenas matas fora do cerco e efectuando ataques à granada de mão em matas dentro da tabanca de Ingoré. Como já se referiu, aquele inferno parecia não ter fim, foi pedido apoio aéreo, pelo que às 9,30 horas chegava nova parelha de T6 que actua até às 11.00 horas. Foi precisamente um destes aviões que acabou por matar o 1º.Cabo Manuel Pinto, mais conhecido por “Baião”. O moço não tinha camisa, pois andava em tronco nú. O piloto, deve-o ter confundido com um elemento inimigo, disparou um roket e foi o fim de uma vida. Foi um erro. Aconteceu. É revoltante. Mas como na guerra nada é normal, só temos que nos conformar e pedir a Deus que o tenha guardado em bom lugar. Este militar era o apontador de bazuca do meu pelotão. Foi de imediato feita a evacuação para o quartel e às 11.15 horas foi evacuado para Bissau. Meia hora depois chega nova parelha de T6 que depois de sobrevoar a zona atingida, retirou por ter terminado o tiroteio. Foi um duro golpe nos nossos soldados, pois o “Baião” era um rapaz alegre e amigo do seu amigo. E também por ter sido o primeiro morto em combate, ao fim de cerca de 17 meses de permanência na Guiné. O cerco manteve-se, organizaram-se equipas que bateram todas as matas, observavam-se aquelas árvores que nos ofereciam dúvidas onde poderia estar algum inimigo e quintais. Fazem-se rusgas dentro da tabanca, actuando pelo resto do dia. A tabanca continuou cercada por todo o dia seguinte até cerca das 21.00 horas. Prenderam-se alguns elementos da população que por qualquer motivo se consideravam suspeitos. Calcula-se que os atacantes eram cerca de 400 e, segundo informações, até pelo sangue visto no terreno, o inimgo teria sofrido muitos mortos e feridos. Estou plenamente convencido, que este ataque levou tanto tempo, devido à rápida reação das nossas tropas, por termos cercado o inimigo e este não poder retirar.

Posted by luis de matos at 15:17:09
Comments

2 Responses to “Ataque inimigo ao aquartelamento de Ingoré e Ingorézinho”

  1. Francisco Basto says:

    Ola amigos, quando se deu este ataque, estava eu com o nosso malogrado amigo o “Jonas” de ferias em Bissau, e soube via radio atraves de um colega que estava no hospital militar de imediato me desloquei para lá e ainda assisti à chegada do heli que transportou o Bodas. Fiquei em estado de choque quando presenciei o estado em que ele chegou ao ponto de nao acreditar que resistiria dado os graves ferimentos espostos.

  2. Adelino Pereira says:

    Caro Luis,

    Apreciando o relato supra, e por ter feito parte da operação descrita, esclareço que o Cabo Pinto foi atingido pela nossa aviação, após ter tomado a iniciativa de passar as telas de referência da nossa posição em terreno, o que eventualmente fez confundir o piloto interveniente na operação.

    Adelino Pereira 2008/03/30 - 17:31

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