Monday, July 2, 2007

Partida para a Guiné

  
 Paquete Ana Mafalda (Fotos gentilmente cedidas pelo camarada e amigo Mário Silva)

 

Lisboa, 3 de Agosto de 1966
Embarquei no paquete Ana Mafalda com destino à Guiné, para aí cumprir o serviço militar, integrado na Companhia de Caçadores nº.1590, pertencendo esta, ao Batalhão de Caçadores nº.1894.
A partida teve lugar no Cais Marítimo de Alcântara. Muitos familiares dos militares que embarcaram, choravam, gritavam e acenavam com lenços brancos. Muitos camaradas também choravam, porque alguns deles, ou já eram casados, ou porque também já tinham filhos e estes estavam ao colo das mães a despedirem-se deles, porque iam partir para a guerra. Eu não tinha ali qualquer familiar, ou amigo próximo. Embora não me rolassem as lágrimas pela cara abaixo, estava um pouco comovido com todo aquele ambiente à minha volta. Passamos a Ponte e levaram-nos por esse mar fora.
Os dias nascem e voltam a nascer. Sucessivamente. Como é normal, só vejo mar e mais mar, nuvens, o barco e o ruído dos motores. À muito que deixei de ver as gaivotas. Essas já ficaram para trás, pois já vou no alto mar. Passo grande parte do tempo debruçado no convés, com o olhar fixo sobre as ondas ou as águas calmas do mar, como que a tentar descobrir que mundo estaria por baixo de mim. Outras vezes vou-me deitar no camarote, enquanto que os meus camaradas vão jogando umas partidas de cartas. Os graduados estão alojados em camarotes duplos, enquanto que os soldados vão repartidos por dois ou três porões, como se de gado se tratasse. Vários soldados pedem ao furriel vagomestre Zorro que lhe compre ums sandes e tabaco, o que este faz e desce ao porão para lhe levar a encomenda. As refeições dos graduados são servidas por empregados que usam papilon e acompanhadas pela orquestra privativa do navio, a que eu assisto mesmo sem comer.
Nos porões, vão várias centenas de jovens amontoados, sem quaisquer condições de higiene. Muitos vomitam,sendo necessário logo recorrer a baldes com água e vassouras para não ficar um cheiro nauseabundo. Dá-me pena ver aqueles pobres rapazes naquelas condições sub-humanas. Manifestei o meu desagrado e quase a minha revolta sobre esta situação ao Ratinho, porque é aquele camarada em quem mais deposito confiança. Não por que outros não mereçam a minha consideração, mas porque passamos muito tempo juntos no mesmo pelotão, o que é normal. Enfim, que se pode fazer? Quando sabemos que o analfabetismo e não só, grassa no país? Há que continuar viagem a caminho da guerra, sem sabermos se regressamos ou não.Mas dá para pensar em muita coisa. É tudo tão solitário, até não chegarmos a Cabo Verde. Aí, vamos estar um dia ou pelo menos umas horas em terra firme. Depois voltará a ser tudo como antes. Solidão, saudades dos entes queridos e mais solidão. Antes de iniciar a viagem, tomei uma decisão. Durante os nove dias, que vai durar a viagem, para não enjoar, não vou meter nada no estômago, a não ser quando estiver em terra firme. Só vou beber água. Mentalizei-me que tem que ser assim. E porquê? Porque em Outubro de 1965, fiz uma viagem no Paquete Funchal com destino à Madeira, onde fui dar uma recruta e durante a viagem, ia vomitando as tripas, chegando enjoadíssimo ao Funchal. Então alguém me aconselhou, que nestas condições, o melhor que há a fazer, é comer o menos possível e acima de tudo só beber líquidos. Estou a seguir este conselho e por enquanto, estou a dar-me bem.
Cabo-Verde, 7 de Agosto de 1966
O Paquete Ana Mafalda, fundeou no Porto Grande, na Ilha de S. Vicente. Ficamos um dia. Aproveitei para dar um passeio pela cidade do Mindelo, de cerca de 20.000 habitantes,1 com as suas casas senhoriais Joaninas e severos prédios pombalinos. Com outros camaradas, passamos o tempo a tirar fotografias e apontamentos, que concerteza irão ser muito úteis no futuro. 

 Cabo Verde - S. Vicente Cidade do Mindelo - Passagem para a Guiné no Paquete  Mafalda - da esquerda para a Direita ex-furrieis milicianos Grilo, Luís de Matos e Francisco Silva 

  
Logo aqui, vou começar a armazenar algumas ideias no caixote dos “pirolitos”. É o meu primeiro contacto, com o povo africano. Constato o calor humano das suas gentes. Aqui e ali se ouve um instrumento de cordas, talvez uma viola e bonitas vozes interpretando a “morna” e a “coladera”. Efectivamente, respira-se um ambiente novo. Recordo-me de me terem manifestado um certo desalento, porque há nove anos que não chovia na ilha, e se pudessem iam viver para Lisboa.
Cabo-Verde, 9 de Agosto de 1966
Saimos do porto de S. Vicente com destino à ilha do Sal. O navio fundeou no Porto de Santa Maria. O sal,2 é a principal indústria da ilha que se orgulha de ter sido pioneira no que se refere a transportes, pois o sal é transportado em vagonetas, cuja força motriz é o vento que faz deslizar os vagões por meio de velas içadas, como se fossem barcos. A grande dificuldade da ilha é a falta de água, o que faz com que a vegetação seja praticamente inexistente. Apenas existem alguns pequenos rebanhos de cabras, que comem tudo, nomeadamente, papel de jornal. Quando passava por um caminho, vinha um daqueles pequenos rebanhos de cabras na minha direcção. Só existia pó e pedras, nada mais. Não faço a mínima ideia do que se alimentam aqueles animais, mas concerteza, que para existirem, têm que ter alimento, ainda que seja pouco. O clima já se nota diferente daquele a que estamos habituados. Para limpar o suor da testa, puxei pelo lenço verde, que fazia parte do espólio militar, inadvertidamente deixei-o cair no pó avermelhado do caminho. Uma das cabras que passava, muito rapidamente o abucanhou, desaparecendo em seguida. Foi uma gargalhada unânime, por parte dos camaradas que me acompanhavam, os três furriéis-milicianos, Grilo, Ratinho e Fernando Silva.
Disseram-me que faltam dois dias para chegar à Guiné. Parece-me que todos estamos desejosos de pôr o pé em terra firme e já que tem que ser, que seja.
Bissau, 11 de Agosto de 1966
Finalmente, cheguei a Bissau no dia 11, às 14 horas.
O desembarque só se verificou no dia seguinte, às sete da manhã, com desfile pela Av. Marginal, tendo a companhia sido alojada no quartel da Amura, mesmo virado para o Rio Geba. Amura,3 é um nome crioulo, que significa muralha, daí o nome de Fortaleza da Amura.
Cheguei à Guiné, 520 anos depois de, no mês de Junho de 1446, Nuno Tristão,4 avistar as margens baixas dos rios da Guiné.
A Fortaleza, foi fundada em 1696,5 pelo capitão-mor José Pinheiro, reconstrução principiada em 1753 sob o traço de Frei Manuel de Vinhais Sarmento e teve continuação 13 anos mais tarde, sob a direcção do coronel Manuel Germano da Mata. Devido à pedra empregue na construção da fortaleza, ser de origem ferruginosa, desgastando-se rapidamente com o tempo, a muralha teve que ser reconstruída novamente em 1946. Era então governador, o Almirante Sarmento Rodrigues. A fortaleza, tem um terreiro quadrado com 150 metros, sombreado por mangueiras, cujo fruto é muito saboroso.
A companhia foi instalada na Amura, de forma a que todo o pessoal se sinta o melhor possível, o que é difícil. Fui arrumar as minhas coisas. Arrumar para quê?. Pensei que o melhor é continuarem na mala. Não há armários, nem estantes, apenas uma cama de ferro com uma rede mosquiteira. Dizem-me que é por causa dos mosquitos não nos picarem. Parece que são gigantes, fazem umas grandes babas e sugam-nos o sangue.
Findo este trabalho, o capitão deu folga a todo o pessoal para conhecer a cidade. Logo na primeira noite, juntei-me a um pequeno grupo para irmos dar uma volta, para conhecermos um pouco da noite guineense. O furriel miliciano Charneca, que é natural de Beja, ou arredores, não sei bem, pertence à CCS do meu batalhão, o 1894, disse-me que há um nosso camarada, já “velho”, o que equivale a dizer que não é “periquito”, que está no rádio do Quartel-General com o Marco Paulo, um artista da rádio e da TV e também alentejano, de Mourão. Vamos lá ter com eles, para nos mostrarem como é isto. Ou pelo menos, aquele meu amigo vai connosco. Estava uma noite escura como breu. Não me recordo de mais nada. O que sei é que me vi dentro dum táxi, com o Charneca e o tal amigo do QG, por um trilho, em que o capim era bem mais alto que o nosso transporte e fomos parar a uma vivenda onde havia música. Muita música cabo verdiana e dança, frangos no churrasco, cerveja e whisky. Não conseguia deixar de pensar que me podiam cortar a cabeça com uma catana. É que a gente ouvia contar cada estória!. Mas ao mesmo tempo, tinha uma certa confiança no tal camarada mais velho. Se ele estava ali e continuava vivo, é porque o local e as pessoas eram de confiança. Há-de ser o que Deus quiser. Coração ao largo, pensei cá prós meus botões.
Dançámos, comemos e bebemos, pela noite fora. Quando aquela brincadeira acabou, regressámos no mesmo táxi. Chegados a Bissau, o nosso motorista foi deixando os passageiros conforme as orientações que recebia. Pela minha parte, fui parar a uma tabanca, mesmo em frente ao quartel da Amura, chamada “Pilão”. É uma zona pobre, suja e miserável. Sem luz eléctrica, sem esgotos e água canalizada. Ali passei o resto da noite, acariciando as roliças coxas de uma bonita mulher, pele acetinada de cor de café. Era de origem cabo-verdiana nascida em Bissau.
Quando acordei, já o sol ia alto. Levantei-me aos trambolhões e pus-me a caminho, sem saber bem onde estava. Deve ser por aqui, pensei. Não demorou muito tempo para ver que estava enganado. O caminho era precisamente o inverso. Quando dei por mim, estava junto ao Palácio do Governador. Tive que descer toda a Avenida que ia dar quase ao quartel da Amura, quando o “Pilão”, onde tinha pernoitado, bastava apenas atravessar a rua e estava no quartel. Mas não, o azimute traçado não resultou, nem podia. Foi assim a minha primeira noite na Guiné. E a única. Nunca mais me deixei influenciar por este tipo de passeios. No dia seguinte soube, que é muito perigoso andar pelo “Pilão” à noite. Foi um grande risco e ingenuidade da minha parte.
Na Amura passei momentos de grande solidão e tristeza, outros menos maus, próprios de quem tem 20 anos, associados ao momento de guerra que se vive. Penso se aqui em Bissau é mau, então quando for para o mato é que vai ser bonito.
1Crónica da Viagem do Presidente Américo Thomaz à Guiné e Cabo Verde em 1968, publicação da Agência Geral do Ultramar, pág. 213

2Crónica da Viagem do Presidente Américo Thomaz à Guiné e Cabo Verde em 1968, publicação da Agência Geral do Ultramar, pág. 213

3Crónica da Viagem do Presidente Américo Thomaz à Guiné e Cabo Verde em 1968, publicação da Agência Geral do Ultramar, pág. 131

4Diário da Viagem Presidência às Províncias de Guiné e Cabo Verde, em 1955, publicação da Agência Geral do Ultramar, pág. 44

5Crónica da Viagem do Presidente Américo Thomaz à Guiné e Cabo Verde em 1968, publicação da Agência Geral do Ultramar, pág. 131

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