Tuesday, July 3, 2007

Acontecimentos - Ano 1966

No dia 26 de Agosto, a companhia saiu de Bissau com destino a Mansoa, cidade que fica a 60 Km de Bissau. A viagem correu bem, sem incidentes, embora muito perigosa. O quartel não era muito mau, mas os 13 furriéis tiveram que dormir num quarto que, à partida, só devia ser para duas pessoas. Evidentemente, que no dia seguinte fomos procurar alojamento em casas particulares, aquilo a que se chamava quartos civis. Recordo-me do sargento Baião, natural de Évora e que já estava no fim da comissão me ter dito, que naquele quarto, estiveram alojados militares que tinham contraído tuberculose, em virtude de terem participado numa das maiores operações levadas a cabo na Guiné, e que a alimentação estaria longe de ser razoável. Na óptica dele, este teria sido um dos motivos porque contrairam a doença. Embora nos tivesse dito, que estivessemos descansados, que tudo tinha sido desinfectado, nenhum camarada lá quiz dormir, mais do que uma noite.

Dia 29 Emboscada ao 1º Pelotão na estrada de Bissau. Fomos em seu socorro.

Dia 30 Escolta à ponte de Bráia.

Setembro /Dia 7 Operação Vaca na região de Encheia.

Dia 9 e 14 Golpes de mão à área de Jogudul.

Dia 17 Partida de Mansoa para Bissorã. Segurança ao quartel e ronda ao mesmo. Jogos de pingue-pongue.

Dia 20. No dia 20 de Setembro de 1966, o meu pelotão e uma secção de milícias, receberam ordensdo Capitão Costa Gomes, para ir recolher lenha à mata e trazê-la para o quartel. Tínhamos um mês de Guiné. Éramos aquilo a que se chamava de “periquitos”, por termos pouco tempo de guerra. Estávamos na época das chuvas. Saímos do quartel, a pé para picagem da estrada, pois era uma zona muito perigosa e havia que ter o máximo das cautelas. Da coluna faziam parte duas viaturas para o transporteda lenha, e um unimog que tinha montado um abrigo, em chapa de ferro, bem grossa, com uma metralhadora, para nos dar apoio, caso viesse a ser necessário, pois quer o apontador da metralhadora, quer o condutor, eram militares já com provas dadas, uma vez que já tinham 17 meses de Guiné, enquanto que nós, tínhamos um mês e ainda não tínhamos dado um único tiro. A coluna deixou a estrada, que tínhamos acabado de picar e embrenhámo-nos no mato. O capim era mais alto do que as viaturas. Andamos cerca de 2 Kms. Chegados ao local para recolher a lenha, as viaturas começaram a ficar atascadas. Quanto mais se tentava tirar dalí as viaturas, maior era o lodaçal e as baterias das mesmas, cada vez mais fracas, até que deixaram de funcionar.

  • E agora? Bom, só há uma maneira de sairmos daqui, diz o alferes Manso. E pergunta? -

  • Quem é que se oferece para ir ao quartel buscar baterias?

  • Eu que me encontrava junto dele, disse-lhe: Vou eu meu alferes. Mal parecia que o não fizesse, uma vez que os outros furriéis, estavam ligeiramente afastados a cuidar da segurança.

  • Então, está bem. Leve os seus homens e vá. Olhe, Matos! Como já picámos a estrada quando viemos para cá, já não é preciso picá-la novamente, e assim, depressa lá se põe no quartel. Logo no início da marcha, o condutor do unimog, que por coincidência também se chamava Matos, diz-me:

  • Ó meu furriél, sente-se aqui ao meu lado, sempre vai um bocadinho mais descansado.

  • Não. Eu nunca largo os meus homens, e agora, também não. Sabe, nem me sentia bem eu ir aí montado e os moços a pé. Mas olhe, você é que pode ir andando, e quando chegar ao cruzamento, quando virámos prá qui, o meu amigo espera por nós, e depois, uma vez que já picámos a estrada, é só andar rapidamente para o quartel.

  • Estava longe de imaginar, que seria a última vez que falava com o moço. O condutor, assim fêz. Adiantou-se em relação ao grupo, talvêz, não mais de 50 metros. Quando estávamos já muito perto da viatura, sofremos uma emboscada, de que resultou a morte do condutor, o apontador da metralhadora gravemente ferido e um soldado milicia, também ferido, embora este, sem gravidade. Apesar de gravemente ferido, o Cabo apontador da metralhadora, acho até que nunca soube o seu nome. Que falha imperdoável esta! Não admira, era periquito…. O moço, ainda fez várias rajadas, até que a arma se encravou. Era uma Breda, daquelas da época da Guerra Mundial. Mal o tiroteio começou, dois ou três milicias foram a correr ao quartel buscar reforços, enquanto que outros, foram ao encontro do alferes e dos restantes camaradas que tinham ficado junto às viaturas, e um ou dois ficaram comigo a responder ao inimigo invisível. Recordo-me de ouvir uma série de obscenidades, ditas pela rapaziadado Norte, pois eram todos Nortenhos. Enquanto eu, revoltado com o que nos tinha acabado de acontecer, gritava bem alto. “Venham cá seus cabrões…. filhos da puta”. Eu sei lá…Foi uma sorte eles não terem vindo, senão tínham-nos apanhado à mão. É que eles fizeram o disparo e fugiram. O tiroteio, não durou mais de 2 minutos. Vimos depois o local, donde tinha sido disparado o roket, que vitimou o soldado condutor, Matos. Do outro lado da estrada, a uma distância não superior a cinco metros, entre muitas, havia uma árvore, cujas pernadas faziam uma forca, e foi aí que o inimigo asssentou o lança-roket, para mandar a roquetada. Quando os soldados milícias chegaram ao quartel e disseram que morreu o Matos, os camaradas da minha companhia, que não sabiam o nome do condutor, pensaram que se tratava do Furriel Matos. A notícia, rapidamente se propagou como o fogo de um rastilho.Nem queriam acreditar. Efectivamente, também podia ter sido eu, caso me tivesse sentado ao lado do condutor. Mas o destino não quiz que isso acontecesse. Quem sabe, até se houve alí a mãozinha da Nossa Senhora da Boa Nova, a padroeira da minha terra. Fôsse lá o que fôsse, ainda hoje me parece um milagre. Não tinha que ser. Todos os anos, recordo o dia de S. Mateus, por este ser um dia que muito me marcou e continua a marcar na minha vida. Por mais que o tente esquecer, ele vem-me sempre à memória. Acho que a partir daí, comecei a ficar um pouco “apanhado do clima” ou “cacimbado”, como se dizia na Guiné.

Passaram cerca de 30 minutos, quando chegaram os reforços. Já tinha acabado o tiroteio. Não faltaram os abraços dos camaradas e palavras de conforto. Por outro lado, chorava-se a morte dum camarada. Ajudado por um ou dois soldados, retirei o ferido de dentro do abrigo da viatura. Com lágrimas de revolta, conjuntamente com os soldados que tinham ficado comigo, começámos a recolher o que foi possível recolher do resto do corpo do infeliz condutor, para as juntar ao que restava no assento da viatura. Que cena horrível e macábra, que jamais poderei esquecer.

Nunca senti que a linha da vida, tivesse estado tão perto da morte. Não há vez nenhuma, que veja a fotografia da viatura acidentada, toda a fumegar, que não imagine alí o pobre do soldado Matos, cortado ao meio pelo roket, que as lágrimas não me rolem pela cara abaixo. É muito difícil a gente esquecer-se de uma situação destas, mesmo que já tenham passado várias décadas. Será que sou diferente dos outros? Parece-me que não, pois tenho, cabeça, tronco e membros como os outros. Enfim, seja lá o que fôr. Finalmente, procedeu-se ao reboque da viatura inutilizada, que o seu condutor tinha baptizado com o nome de “Paulucha”. Nunca cheguei a averiguar o porquê deste nome. Seria em homenagem a um seu ente querido? Talvêz.

Seguidamente, fomos recolher as viaturas que tinham ficado a cerca de 2 Kms, mas já em incidentes. Foi assim, o meu baptismo de fogo. Foi logo pra doer, e bater bem no fundo.

Quarenta anos depois, no dia seis de Junho de 2007, decorreu o 10º. convívio da companhia 1590 na Foz do Arelho, num restaurante de propriedade do camarada Joaquim Bernardo Coito, que foi Soldado Condutor Auto. Durante o repasto, o Abílio da Silva Vieira, que foi 1º. Cabo Atirador, da minha Secção, disse-me, que uma irmã do condutor Matos, reside também em Vila Nova de Gaia, próximo da sua residência. Um dia, calhou em conversa e o Abílio disse-lhe: “Olhe, sabe uma coisa, o seu irmão morreu ao pé de mim”. Não sei como acabou depois a conversa, que não perguntei ao Abílio. Mas dá para imaginar.

Embora tardiamente, pedi ao Abílio que, em meu nome, desse uma palavrinha de conforto à irmã do Matos, cuja morte, um dia chorei nas matas da Guiné, entre Bissorã e Barro. Habituado que estou, a tratar com todo o tipo de Imprensa, em que as nossas emoções não devem ou deviam contar, até para sermos isentos e imparciais, segundo o Código Deontológico, não consigo referir-me a este triste episódio, sem deixar cair algumas lágrimas. E devo dizer que não sinto vergonha por isso.

Dia 22 Emboscada à saída de Bissorã para Mansoa. 5 guerrilheiros inimigos mortos com armas abandonadas. A 816 levantou duas minas. Um milícia morto. Noite de 22 para 23 de Setembro. Golpe de mão à área de Jogudul.

Dia 25 Saída de Mansoa para Bissau.

Outubro /Dia 9 Coluna e escolta de Bissau para Mansoa, Bissorã e Olossato com passagem pela ponte Maqué. Viaturas e muita lama. Operação a Jracunda.

Dia 10 Saída de Olossato. Emboscada. Passagem por Bissorã, Mansoa, Safim, Nhacra e Bissau.

Dia 24 1º Grupo de combate vai para Massabá, 3º. Para Bissorã e 0 2º. Para Olossato. Construção da ponte de Maqué.

Dia 25 Dormida no abrigo da ponte de Maqué. Muitos mosquitos e vinho.

Dia 26 Saída de Olossato para Bissau. Bissorã, Mansoa, sem picagem de estrada por ser noite. Chegada a Bissau às 22 horas.

Novembro /Dia 30 Saída de Bissau para Ingoré do 2º. Pelotão. Passagem por Safim, João Alandim, Cacheu, Bula, S. Vicente e Ingoré.

Dezembro /Dia 2 Verificação e montagem de armadilhas na fronteira.

Dia 4 Patrulhamentos na zona de Carabana Cherie.

Dia 6 Chegada da companhia a Ingoré. 2º. Grupo de combate emboscado até às 20.30 horas e jantar às 22 horas.

 Dia 8 1º pelotão vai para Barro. 5 guerrilheiros mortos. Uma mauser automátia apreendida.

Dia 10 Picagem da estrada ate ao Sedengal. Há noite emboscados na pista.

Dia 13 Patrulhamento à zona de Carabana Balanta. Dois guerrilheiros presos no acampamento de Naga.

Dia 15 Patrulhamento à zona de Carabana Balanta.

Dia 17 Emboscados na estrada do Sedengal.

Dia 20 Montagem e verificaão de armadilhas. Emboscados na pista.

Dia 22 Emboscada desde as 4 da manhã às 15 horas Fome e calor.

Dia 24 Dia de Natal. Festa de despedida da 788. Ronda ao quartel. Bebedeiras em Ingoré.

Dia 28 Faço anos a 28 de Dezembro e neste dia fiz 22 anos. Mas, a guerra é a guerra. E, neste dia, a companhia foi fazer uma operação junto à fronteira do Senegal tendo sido baptizada com o nome de “Dragão”. Diz-se que fizemos 5 mortos ao inimigo,nunca os vimos, mas diz-se, enquanto que, da nossa parte, apenas um soldado nativo levou um tiro na boca, tendo sido evacuado para Bissau. Que sorte a dele e que acontecimento raro, dizia-mos nós uns para os outros.

Dia 30 e 31 Emboscados na pista e ponte de Ingoré.

Posted by luis de matos at 22:07:10 | Permalink | No Comments »