Wednesday, July 4, 2007

Ano de 1967

Janeiro /Dia 1 -  Ano Novo foi comemorado, com vinho verde, leitão assado, espumante e bolos em casa do Chefe de Posto.

Dia 16 Saída de Ingoré da 788 e chegada da 1482. Emboscados na pista.

Dia 18 Montagem de armadilhas com uma secção da 1482.

Dia 20 Picagem de estrada até à Bolanha Bissabúri. Levantamos 6 abatizes.

Dia 28 Decorreu uma operação em Sano que fica na fronteira com o Senegal. Incendiámos o acampamento. Apreendemos uma metralhadora, várias granadas de mão, cunhetes de munições, relógios de despertador e outro material. Eu, encontrei uma catana, que ofereci ao comandante da companhia. Nesta operação, houve três mortos confirmados e vários feridos. Foram feitos cinco prisioneiros. Por parte das nossas tropas não houve qualqer baixa e muito menos qualquer ferido. Esta operação foi baptizada com o nome de “Drambuí”.

Dia 30. Encontrando-se a Companhia de Comando e Serviços do meu batalhão, em S. Domingos e pertencendo a esta o Furriel Miliciano, Dinis da Conceição Viegas, o seu pelotão sofreu uma emboscada, tendo este falecido. Foram evacuados 6 soldados. O Dinis esteve comigo no RI 10, em Aveiro, depois fomos para o RI 15, em Tomar, antes de termos sido mobilizados para a Guiné. Era um dos meus melhores amigos e estimado por todos os camaradas. Era natural de Setúbal. Quando a notícia chegou a Ingoré, recebia com muita tristeza, consternação e lágrimas. O regime noticiava assim a sua morte, com publicação num jornal da época, sob o título “Militar morto no Ultramar. O Serviço de Informação Pública das Forças Armadas comunica que morreu em combate, na província da Guiné, o furriel-miliciano Dinis da Conceição Viegas”.

Fevereiro /Dia 13 Operação de reconhecimento na zona de Podame e Antotinha, denominada de “Dardo 2”. 11 guerrilheiros presos e suicídio de um outro no abrigo, do quartel de Ingoré.

Dia 16 Neste dia, foi feita uma operação à base de Canchungo e baptizada com o nome de “Dalidá”. Correu tudo muito bem, onde a minha secção, pela força das circunstâncias, foi a que mais se distinguiu. Tivemos apenas um soldado da minha secção ferido no braço esquerdo e na cabeça com estilhaços provocados pelo disparo da nossa bazuca, não sendo, felizmente nada de grave. Antes de chegarmos ao objectivo sofremos uma emboscada, que, só por sorte não sofremos qualquer baixa. Podia até ter sido eu, visto que era o primeiro da frente. Digo que podia ter sido eu porque era aí que estava concentrado o maior poder de fogo do inimigo. Uma outra secção de outro pelotão, também foi muito fustigada. Foi mais um dia bastante amargurado, entre tantos. Sim, porque nesta terra e nesta guerra, nunca se sabe o que nos espera o dia seguinte. Para já, foi o 2º. dia mais negro na Guiné, porque em 1º., não no pódio, porque aqui não há lugar para vencedores, nem vencidos, estará sempre o dia 20 de Setembro de 1966.

Dia 25 Vinda de Barro para Ingoré do 1º pelotão

Março /Dias 5 e 6 Nomadização das regiões de Fagor, Cedif, Sinchamamadu Masassane com dormida em Barro.

Dia 7  Pelas 12 horas o 2º. Pelotão, que era aquele a que eu pertencia, partiu de Ingoré para S. Domingos, que era uma zona considerada como um “inferno”. Passamos por Antotinha e chegamos ao porto de S. Vicente, no Rio Cacheu. Entramos a bordo de um barco da Marinha, subimos o rio Cacheu, para pernoitarmos no destacamento do Cacheu, onde chegamos às 18,30 horas. Não sei como lá fui parar, mas numa das salas, assisti a um interrogatório feito pela PIDE a elementos inimigos, que nunca pensei que fossem possíveis. Tanta brutalidade feita a um ser humano, meu Deus. Saí daquela sala, com vontade de vomitar e todo suado. É que nunca estive preparado, para aquelas cenas. Não consegui pregar olho a noite inteira, só de pensar nas monstruosidades alí praticadas sobre seres humanos. Aquilo a que temos assistido na imprensa sobre o que os Americanos fizeram no Iraque, ou noutras partes do mundo, comparado com o que assisti no Cacheu, não passam de umas “festinhas”. O que a guerra faz dos homens. Autênticos monstros. Afirmo aqui, solenemente, que nem eu, nem os homens que tinha sobre o meu comando, e todos os camaradas são testemunhas que nunca tocámos com um dedo sequer, em qualquer elemento aprisionado durante as operações levadas a cabo pela companhia. Certo dia, em Ingoré, fui dar com uns soldados, que não eram do meu pelotão e muito menos da minha secção, a quererem linchar um prisioneiro. Devo afirmar aqui, que foi com alguma dificuldade que o impedi. Tive que persuadir aqueles jovens de 20 anos, como eu, a não estragarem a sua vida, pois atitudes do género, dava lugar a julgamento em Tribunal Militar. Enfim, é apenas um pormenor No dia seguinte, lá seguimos viagem, rio acima. Chegámos a S. Domingos às 8 horas da manhã, para nos juntarmos à companhia de Cavalaria nº.1483, comandada pelo capitão Costa Gomes e à Companhia de Comando e Serviços do meu batalhão, o 1894. Lá estava à minha espera o Florimundo Garcia, namorado da Mila, prima da minha mulher. Estava também com ele o Rolo, que era um moço da Barraca de Pau, um bairro dos arredores de Évora, e que hoje é empresário de mármores, em Vila Viçosa. Como moços já conhecedores do sítio, trataram logo de arranjar umas ostras. Comprarm um cesto delas por 10 pesos, o equivalente a 10 escudos na nossa moeda, hoje 5 cêntimos. Não faltou o pãozinho quente, ajudados pelo Manel Martins e pelo seu ajudante, Henrique Jorge, que eram padeiros da companhia nº.1483 e amigos do Florimundo Garcia. Arranjado o petisco, logo o fomos malhar, com umas cervejitas. No dia seguinte, o meu pelotão foi dormir ao Sonco. O Sonco, tinha sido uma tabanca, que os guerrilheiros do PAIGC, tinha varrido do mapa. Então, nós íamos para lá guadar não sei o quê. Era necessário construir abrigos onde passamos a noite, mas com sentinelas em cada abrigo. Muitos mosquitos e fome. Dormir?. “Cá pude”, que o mesmo é dizer, nem pensar. Quem é que podia? Embora sempre houvesse soldados, que o faziam.

Dia 9 O meu pelotão, recebeu ordens para ir cortar cibos para os abrigos do Sonco. Trabalhar a rações de combate.

Dia 11 Montagem de armadilhas. Patrulhar o carreiro de Jégue.

Dia 12 Cortar cibos para o Sonco. Jantar; pão, atum a sardinhas. Dormir “ cá pude”.

Dia 14 Patrulhar o Carreiro dos Americanos. À noite, emboscados na Morcunda.

Dia 18 Ida ao Poilão de Leão. Construção dos abrigos do Sonco e dormida no “hotel Mosquito”.Foi assim que baptizámos os abrigos subterrâneos do Sonco

Dia 20 Carregamento de adobos e emboscados na Morcunda.

Dia 22 Neste dia, saí do Inferno de S. Domingos para Férias a gozar na Metrópole, repartidas por Terena e Évora. Tratei de alugar uma avioneta que foi de Bissau a S. Domingos recolher-me. Era o único passageiro. Já não me recordo do valor do aluguer, embora não interesse muito, mas acho que seriam aí uns 5/6 contos. Era o ordenado de um mês. Mas queria lá saber. É que, a qualquer momento, a gente leva um tiro na cabeça. Recordo-me do Ratinho e do Zorro me dizerem; “É pá, leva-me contigo”. Tem cuidado! Olha que a semana passada caiu uma avioneta, diziam-me os camaradas, que se despediam de mim, na pista. Como se pudesse fazer alguma coisa. Nunca tinha voado num pássaro daqueles. As mãos suavam, o que me obrigava a limpá-las constantemente. O Furriel parece que está nervoso, dizia-me o piloto. Não, que ideia. Quando aquele pássaro levantou voo, notei que abanava por todo o lado, deu uma volta por cima de S. Domingos, depois o Rio Cacheu e a mata. Pela primeira vez experimentava uma nova sensação. Via tudo ao contrário, mais as mãos me suavam. Iniciámos a viagem com voo rasante sobre a mata cerrada. Sem saber o que a mesma escondia, ainda mais suava, só por pensar o que tinha acontecido na semana anterior. É que me lembrava, que uma semana antes, algures, tinha caído uma avioneta, precisamente por voar muito baixo, tendo sido atingida pelos guerrilheiros do PAIGC.

Abril /Dia 10 Emboscada na estrada do Sonco. Alferes Gonçalves partiu um pé. Apreendemos uma fita de metralhadora.

Dia 17 Operação “Desgaste”.

Dia 22 Reconhecimento a zona de Endodge.

Dia 25 Operação “Danil”. À noite ocorreu um ataque a S. Domingos.

Maio /Dia 7 Ataque a S. Domingos. Eu não estava presente, pois encontrava-me de férias no continente.

Dia 9 Vindo da Metrópole, acabei de chegar das minhas mais que merecidas férias, ao inferno de S. Domingos. Em calções, o ex-Furriel Miliciano Atirador, Manuel da Costa Ratinho, natural de Cunheira, concelho de Ponte de Sor, residente em Alverca do Ribatejo, o 2º Sargento Ramalho, natural de Montoito, (eu, em farda de passeio) ex-Furriel Miliciano Atirador, Luís José Valentim de Matos, natural de Terena, concelho de Alandroal, residente em Évora e o Ex-Furriel Miliciano Vagomestre, Celestino António Zorro, natural de Santo André, concelho de Estremoz e residente em Borba. Trouxe comigo na bagagem uns paios alentejanos, para entregar ao Florimundo Garcia, que a tia Bernarda me pediu para levar ao futuro genro.

Dia 26 Jantar em Nhambalam. Operação a Bonhaque e uma sentinela IN, ferida.

Posted by luis de matos at 17:31:26 | Permalink | No Comments »